TESTEMUNHO
DO PASTOR ÁTILA BRANDÃO
Dt 6:21, Cl 1:13-14
Eu era escravo do diabo. Eu nasci na cidade de Salvador na Bahia, de
uma família muito rica da minha terra, muito prestigiada e muito
conhecida. E quando eu era muito pequeno de muito tenra idade, algo
na casa onde morávamos me chamava muito à atenção.
Havia um salão muito amplo, muito grande e dentro daquele salão
existiam vários armários que iam do chão até
o teto e eles eram de jacarandá da Bahia. E na frente tinha um
vitrô de cristal da boêmia, e ali dentro, um sem número
de livros, de obras raras,
que foram trazidos da Europa por meus avós.
E aquilo me atraía muito. Desde pequeno eu chegava ali, começava
a olhar aquilo, abrir aquele armário com esforço muito
grande e ia compulsando aquelas literaturas. E por que existia aquela
grande biblioteca ali e aqueles livros estavam ali e aquilo me chamava
a atenção. E eu ia lendo livro após livro e foi
criando em mim um hábito de pesquisa, um hábito de ler.
E cada vez que eu ia crescendo eu ia alimentando em meu coração
um desejo muito grande de ser um cientista. Eu queria ser respeitado
na minha terra e no meu país não pelo nome de família
ou pelos bens materiais que a família dispunha mas sobretudo
pelo intelecto. Eu queria ser um homem muito preparado; eu queria estudar
nas melhores universidades do mundo; queria falar todas as línguas
que pudesse;
queria conhecer os quatro cantos do mundo.
Este era o meu anelo, o meu anseio, era o meu ideal. E eu fui crescendo,
dia após dia, e iam passando e, num certo dia, quando me dei
conta, eu já estava entrando num colégio militar. E depois
de ter terminado o meu curso no colégio militar eu fui para uma
academia militar. E ali naquela academia militar , após quatro
anos, eu fui declarado aspirante oficial nos idos de 1967. E naquele
mesmo ano, eu fui declarado aspirante em outubro e, no mês de
dezembro, por insistência de uma garota com quem eu namorava,
que estava terminando o curso de medicina, eu ingressei na Faculdade
de Direito, na Universidade Federal. E aí comecei a estudar,
e fui crescendo, fui progridindo como soldado.
Eu era muito vaidoso, eu gostava de ser militar. Geralmente os militares,
eles usam uma farda onde os botões são dourados: os meus
eram de ouro. Eu tinha um cinto que precisava ser burnido todo dia,
quando todos os militares mas, o meu era de ouro, não precisava.
E eu calçava um sapato de oleado para não precisar polir.
Eu era muito orgulhoso e muito vaidoso por ser oficial. Era um grande
sonho da minha vida. E os dias foram passando, passando e em 1973 eu
fui promovido ao posto de capitão e eu era um dos poucos capitães
com vinte e poucos anos de idade que ostentava em meu peito esquerdo
três medalhas, uma passadeira completa, e, uma delas era de feitos
heróicos. Mas, neste mesmo ano de 1973, eu já estava me
graduando no curso de direito. E nós fizemos uma amizade muito
grande naquela escola. Desde o primeiro ano, nos idos de 67.
Íamos indo amealhando amigos de todas as unidades da nossa universidade.
E fizemos um grupo, um grupo composto de pessoas que estudavam medicina,
estudavam farmácia, enfermagem, engenharia, nutrição,
economia e administração. E, aquele grupo, se reunia quase
que cotidianamente no restaurante universitário e nós
não permitíamos que outras pessoas entrassem naquele grupo;
era um grupo fechado. Nós discutíamos coisas que eram
importantes para nós, principalmente aquilo que se dizia fenômenos
extra sensoriais e estudávamos a mente humana, aquelas coisas
todas e aquilo ia causando no coração da gente um desejo
de aprender mais a respeito destas coisas. E, um dia, quando nós
menos esperávamos, terminou o nosso curso universitário.
E nós estávamos prestes a nos confrontar com a vida profissional.
Então fizemos uma aliança: a partir de hoje, nós
vamos continuar nos reunindo em cada uma das nossas casas, semanalmente,
e não vamos permitir que ninguém faça parte de
nosso grupo que não seja doutor, que não tenha um anel
no dedo ou diploma de nível universitário. Começamos
com aquele pacto no ano de 1973 e seguimos para a vida profissional.
E quando nós recebemos o canudo, muitos dos nossos anelos, nossos
desejos, dos nossos sonhos se desfizeram. Agora nós tínhamos
um desejo muito grande, que era o desejo de ganhar dinheiro, ganhar
muito dinheiro, como advogado e montamos um escritório com seis
advogados trabalhando conosco e começamos a trabalhar no Fórum
da nossa cidade, advogando para multinacionais e eu costumava dizer
que o Fórum da minha terra era o maior magazine do norte e nordeste
do Brasil, onde se comprava e se vendia todas as coisas.
E ali estava eu, advogado, jovem, montado num Mercedes Benz, dirigido
por um motorista, vestido a rigor com roupa e com quepe, tinha um menino
para carregar minha pasta e eu muito vaidoso e muito orgulhoso entrava
ali, vestido de ternos ingleses ou italianos, gravata êrmê,
camisa Lacoste, meia Durrê durrê e ia todos dias para aquele
Fórum em busca de grandes somas de dinheiro. E nós estávamos
trabalhando, nós estávamos prosperando,
as coisas estavam funcionando,
o trafico de influências era grande e nós estávamos
realmente satisfeitos.
Mas, eis que um certo dia, eu que era uma pessoa eminentemente vaidosa
e que não gostava de apertar a mão de ninguém e
se alguém tinha que apertar a minha mão para fechar um
negócio, eu queria chegar correndo no escritório, ou em
casa, para lavar a mão. E dependendo do tipo de pessoa, passar
um pouco de éter ou álcool, às vezes até
detergente, alguma coisa porque eu tinha nojo das pessoas.
Eu olhava as pessoas como números, como meros volumes e não
tinha outro interesse a não ser faturar, ganhar dinheiro e traficar
com aquelas influências. Mas, um certo dia, eu ia saindo do fórum
da minha terra, o Fórum Rui Barbosa e, ali no portão principal
em frente ao fórum, na sua entrada principal, estava o nosso
carro parado, com o nosso motorista e quando eu descia com aquele menino
que carregava a minha pasta, eu vi um antigo companheiro de caserna,
um ex companheiro de quartel e eu vi que ele me viu e, quando eu vi
que ele me viu, eu quis dar uma de João sem braço, eu
quis abaixar e sair correndo para dentro do carro e ele disse "
não adianta correr, eu já te vi".
E eu fui correndo e ele disse "eu já te vi". E veio
na minha direção, e eu 'que papelão, um sujeito
berrando, aqui no meio da praça do fórum, o que que há?'
e ele disse: 'Eu queria que você fosse na minha casa hoje à
noite'. E eu era exímio mentiroso e eu disse "eu não
posso ir porque estou com um compromisso hoje.' Ele fez 'mentira'. E
era mesmo! 'Eu quero que você vá na minha casa'. 'O que
é que eu vou fazer na tua casa?''Não, você tem que
ir'. E ele apertou de todos os lados e eu dei a palavra que ia e fui.
E, naquela noite, eu chegava na sua casa, eu conheci a sua esposa, soube
ele já era major, e eu encontrei uma grande quantidade de pessoas
ali naquela casa. E, aquela senhora, que era a sua esposa, estava sentada
num divã, assim no meio da casa, cercada por muitas pessoas,
e era o alvo, o alvo das atenções daquelas pessoas. Então,
eu admiti, por minha conta e risco próprios, de que era o aniversário
daquela senhora e eu fiquei triste com aquele major porque ele não
tinha me falado que era aniversário daquela senhora. Porque eu
passaria numa loja, compraria uma jóia muito cara e daria a ela
na vista de todo o mundo para que ela dissesse 'olha o que ele me deu'.
Eu era muito vaidoso.
E eu não pude marcar aquele ponto de massagear o meu ego e a
minha vaidade naquela noite. Mas, um dado momento, aquela senhora levantou-se
e foi para uma sala maior e, naquela sala existia uma mesa no centro
dela, uma mesa muito grande, guarnecida por uma toalha de brocado branca.
E aquela senhora sentou-se na cabeceira daquela mesa, e chamou-me para
sentar do seu lado direito, local de autoridade. E eu fiquei feliz,
'olha como eu sou importante aqui, vou vir sempre aqui nesta casa!'
E depois, ela foi posicionando as pessoas ao redor daquela mesa e, de
repente, ela deu um sinal para o seu esposo e ele assentou-se em diagonal
a mim, eu aqui à direita e ele estava lá do outro lado,
na ponta da mesa.
E eu comecei a sorrir e ele também sorria, eu creio que ele sorria
porque pensava que eu estava gostando mas não era. É que
meu coração estava dizendo 'oh, que saudade do quartel,
se eu ainda estivesse no quartel, eu ia chegar amanhã no pátio
e espalhar que em casa que mulher manda até o galo canta fino'.
E ela fez um sinal para ele e ele levantou e apagou a luz. E quando
ele apagou a luz, eu entrei em parafuso. Eu disse 'Meu Deus, onde eu
fui me meter? O que é que é isso? O que ela vai fazer?'
E, quando aquela luz foi apagada, acendeu-se no centro da mesa uma lamparina,
uma luz assim muito mostiça, e ela transfigurou-se.
Aquela mulher mudou, aquela mulher tão amorável, tão
amorosa, tão gentil, assumiu um aspecto diferente e a sua voz
ficou como que cavernosa e ela começou a falar de uma maneira
diferente. Aquilo metia medo, e, ela dizia coisas a meu respeito: que
eu era aquilo, que eu era isso e eu nunca tinha visto aquilo e fiquei
impressionado, e fui acompanhando, apesar de haver gostado do ela disse
para comigo, porque estava massageando a minha vaidade e, em dado momento,
eu não entendia mais nada e a coisa terminou. E quando terminou,
eu me dirigi para aquela mulher e lhe disse '
o que é houve aqui? Eu quero saber o que é que está
havendo'.
E ela olhou para mim e disse ' eu não vou te dizer nada. Você
vai tomar a caneta e vai anotar a relação de livros que
eu vou te dar e você vai comprar estes livros e vai ler'. Aí
deu-se o que se chama na Bahia de juntar a fome coma vontade de comer.
Eu gostava de ler e eu falei para o meu motorista, o Celestino, que
era uma pessoa a quem eu gostava muito.
O Celestino era um crioulo de quase dois metros de altura que eu tinha
tirado ele da penitenciária, ele faria qualquer negócio
que eu mandasse; era um sujeito preparado. Eu disse: 'Celestino, você
vai nesta livraria e traz estes livros e ele trouxe aquele volume, aqueles
volumes de livros para mim e eu fui lê-los de um fôlego
só, noite a dentro e fiquei apaixonado pela vida daquele sujeito
chamado Denizáre Politi Lion Rivelio.
O Denizáre Politi Lion Rivelio era médico, era lingüista,
era formado em pedagogia, era um homem muito inteligente, muito preparado
e eu fiquei totalmente apaixonado pelas suas obras. Talvez você
nunca tenha ouvido falar em Denizáre Politi Lion Rivelio porque
ele é conhecido pelo seu apelido Allan Kardec. Eu apaixonei-me
tanto pelas obras de Kardec que eu saí da Bahia e fui para Paris,
atrás de aprender mais sobre ele.
E ali num sebo, numa livraria de livros usados, eu encontrei um livro
escrito por ele quando ele voltara de Iverdum, onde havia estudado pedagogia
aos pés de um dos maiores mestres desta ciência, Pestalose:
Le Contradicion. E eu peguei aquele livro e saí lendo e, de lá,
fui para a Suíça atrás de conhecer mais a respeito
daquele homem e, quando eu retornei, quando eu continuei freqüentando
aquelas reuniões, em pouco tempo, eu havia me tornado um médium
espírita de todos os dons de mediunidade.
Eu era médium de audiência, ouvia no mundo dos espíritos,
médium de vidência, via no mundo dos espíritos,
médium de incorporação, recebia entidades, médium
de transporte, o meu espírito saía do meu corpo e nadava
vagueando pelo mundo trazendo respostas para os consulentes e era médium
de psicografia, a chamada escrita mediúnica. E comecei a levar
aquilo a sério. Eu achava que aquela era a nova, a grande revelação.
E comecei a estudar cada livro, e comecei a fazer conferências
e comecei a andar por aí e a mostrar que realmente aquilo era
o supra-sumo da verdade. E, uma certa vez encontrei-me com um homem
muito conhecido neste Brasil, militante nessa área do espiritualismo,
que todo o Brasil conhece e, ele conversando comigo, disse: 'Átila,
você é um rapaz muito inteligente, e por isso você
está assim, mas eu quero fazer um desafio, um grande desafio'.
E eu gostava de desafio. Eu gostava de ser desafiado.
Eu gosto de ser desafiado. E ele me disse: 'Eu quero que você
vá para a limpeza pública do espaço'. O que é
limpeza pública do espaço? Ele disse 'É umbanda'.
Eu disse: vou. E, com pouco tempo, além de médium espírita
de todos os dons de mediunidade, tornei-me ogan de terreiro de ubanda.
Ah, mas como eu gostei de ser ogan de terreiro de ubanda.
Que coisa boa pra mim era ogan terreiro de ubanda embora cada dia que
passava eu me tornava um sujeito mais miserável, mais implacável,
mais desgraçado, mais irascível, mais iracundo odiando
a tudo e a todos e a mim mesmo, mas, como a ubanda para mim era boa
porque me dava as respostas imediatas.
Muitas vezes nós estávamos pugnando a causa que envolvia
onorários de dois , três milhões de dólares
e nós queríamos receber aquilo e estávamos ávidos
de receber e procurávamos como corromper o advogado exadverso
e ele não topava a parada e dizia que não tinha acordo,
que não tinha jeito e nós dizíamos que quinta-feira
nós vamos resolver este problema e ele dizia que não tinha
dia na semana para resolver e nós dizíamos "vamos
resolver' e eu havia feito um pacto, uma aliança com alguém
muito poderoso para mim e ele era o chefe de tudo e o nome dele é
Satanás.
E eu fiz uma aliança de sangue com ele. E quando chegava na quinta-feira
eu dizia 'Satanás, eu quero que você me faça um
favor' e o que você pedir eu vou te dar. Ele dizia 'O que é
que você quer?', na meia noite naquela gira, naquele congar, naquele
canzuá, naquele terreiro, eu dizia 'Eu quero que você bata
o carro de Dr. Fulano, vire o carro dele, coloque um infarte no coração
de fulano de tal, faça com que o juiz Dr. Fulano que não
quer dar a sentença, a mulher tráia ele, bote outro homem
na cara dele, e brigue dentro de casa com ele, faça um escândalo
e eu dou o que você quiser'. E, com 24, 48 horas no máximo,
a coisa era realizada.
O que é que eu tinha que fazer? Eram coisas simples: apenas oferendas,
colocar oferendas nas praias, nas cachoeiras, nos rios, nas encruzilhadas,
machos e fêmeas, nas praças, nos jardins. Mas isso a mídia
mostra em nosso país, as pessoas fazem isso, eles estão
comprometidos com as trevas. E quando você deseja matar alguém,
a coisa tem que ser um pouco mais difícil. Você tem que
ir ao cemitério, corromper o coveiro, abrir uma sepultura e comer
a carne do defunto, para que Satanás te responda.
E as coisas iam andando, nós íamos ganhando muito dinheiro,
mas, cada dia que passava, eu ia entrando numa depressão muito
grande. E, talvez você não saiba, mas todos aqueles que
servem ao diabo a nível sacerdotal são obrigados a serem
homossexuais. Todos chamados de pai de chiqueiro que o povo chama de
pais de santo são homossexuais. Tanto eles como as mães
de santo. O diabo coloca nas cabeças deles que exitem entidades
que são femininas e que não iam dar bem no corpo deles.
Ou eles queiram ou não, são estuprados quando estão
na camarinha, naquele período que estão fazendo a cabeça
para depois bolar e se tornarem pais de chiqueiro que o povo impropriamente
chama de pais de santo ou mães de santo. Pai de chiqueiro e mãe
de chiqueiro! Graças a Deus que eu não servi ao diabo
a nível sacerdotal, nem nunca quis. Mas este país está
mergulhado nesta lama, nesta podridão, e muita gente acha que
é muito bonito. E, cada dia que passava, eu entrava num espiral,
não tinha paz, não tinha alegria, nada me satisfazia.
Era um homem casado com uma médica e nós tínhamos
trocado algumas gentilezas em casa e eu lhe disse: 'se você quiser
ficar dentro desta casa, quando nós cruzarmos pelo corredor,
não toque em mim porque eu tenho nojo, eu tenho asco de você.'
E nós vivíamos juntos apenas para manter as aparências
porque eu precisava muito dela, porque eu era um sujeito prostituto,
cheio de amantes, muitas das quais eu tinha dado carros , apartamentos
e dinheiro. E eu precisava daquela mulher, minha esposa, junto de mim
para nas festas conseguir a graça de mulheres de outras pessoas.
E, em determinada altura da minha vida, a sede e a fome de preencher
o vazio que se encontrava no mais recôndito do meu ser era tão
grande que eu era médium espírita de todos os dons de
mediunidade, ogan de terreiro de ubanda, eu era do Sisho no ei, eu era
do hare chistnas, era da meditação transcedental, eu era
messiânico, era da ciência cristã, era mestre de
massonaria, era mestre rosa cruz, era iogue, era zen budista, era budista,
era alquimista, era meditador transcendental, era ocultista, era da
"New Age".
E, cada dia que passava eu ia ficando pior. Eu não tinha paz,
não tinha alegria, não tinha satisfação,
não tinha contentamento, era um rebutalho, era um trapo, era
um homem perigoso, porque era um homem insólito e sozinho e homens
sozinhos tendem a suicidar.
E certo dia, porém, eu estava naquele canzuá, naquele
congar, naquela gira, esperando dar a meia noite, hora que aquele meu
amigo chegava para falar comigo e atender os meus pedidos, em dado momento
eu ouvi uma voz que dizia: 'Ai não é o meu lugar.'
E naquele terreiro que nós havíamos construído
desviando dinheiro
e recursos de grandes empresas e só entrava doutor.
Ali tinha um mogan do meu lado que era diretor financeiro de uma das
maiores construtora deste país,e , olhei para ele e disse assim:
'eu ouvi uma voz'.
'Ora, aqui nós ouvimos vozes' É claro que se você
ver um sujeito analfabruto, que não sabe nem ler nem escrever,
não tem nenhum nível de escolaridade, e ele consegue saber
e falar até nagô, e dizer todas aquelas coisas e descrever
cada uma daquelas entidades, nós éramos doutores, eu sabia
todos os pontos riscados, conhecia as expressões vocais de cada
uma daquelas entidades, sabia quem era pela batida, pela voz, pela maneira
de se apresentar, eu sabia tudo aquilo, mas nunca tinha ouvido uma voz
daquela maneira: era uma voz diferente.
Eu estava acostumado com uma voz de ódio, de imposição,
ou você faz ou eu te mato, ou você faz ou eu te arrebento,
ou você faz ou vai ter que acontecer, você não pode
ir a um aniversário, você não pode ir a tal casamento,
você não pode comer isto, você não pode vestir
tal roupa, você tem que ir , não pode sair tal dia, eu
era escravo do diabo. E aquela voz era uma voz diferente, era uma voz
doce, uma voz melíflua, uma voz que dizia:'Aí não
é o meu lugar'. E eu fiquei esperando aquilo. Meia hora depois,
eu ouvi a mesma voz,
o mesmo som, a mesma tonalidade, o mesmo timbre e me dizia
'Eu sou o Senhor, aí não é o meu lugar'.
E, naquele dia, eu disse 'Nunca mais eu vou voltar neste terreiro.'Conferenciei
com o meu amigo que estava ali do meu lado e disse: 'você ta louco?'
'Estou, nunca mais eu volto aqui'. E saí correndo dali em busca
do nosso carro e quando eu cheguei naquele carro e abri aquela porta,
que posicionei-me no volante, eu tive a sensação de que
alguém entrara e se assentara no banco de carona e eu fiquei
intrigado porque eu era médium, também vidente, eu via
todas as coisas no mundo do espírito, eu não estava podendo
ver quem estava no meu lado e eu saí em desabalada carreira e
apoderou-se de mim naquela noite um desejo irresistível de morrer.
Eu queria me arrebentar, eu queria explodir, eu queria quebrar-me ao
meio, e saia naquela madrugada em alta velocidade, cerca de 70 quilômetros
pra chegar na minha casa e eu ia em velocidade e, quando chegava na
curva, entrava na contramão e só pensava 'vai aparecer
uma grande carreta e eu vou explodir em cima dela ou um ônibus
ou qualquer coisa' e não aparecia, e, quando chegava num despenhadeiro,
jogava pra cima e algo me livrava.
Aquela sensação terrível de alguém, aquele
calor, aquela coisa crespa no meu lado, e eu ia correndo e, quando dei
por mim, estava chegando na minha casa. E nós entramos ali. E
eu parei o carro, e olhei para aquele edifício. E era muito vaidoso
e eu gostava, coisa que eu mais gostava de fazer cadastro de banco,
pra levar aquele monte de títulos para o banco.
E chegava ali e a mulher perguntava 'o seu endereço?' 'rua Florianópolis,
edifício Porto Príncipe, quarto andar'. E ela dizia 'e
o número do apartamento?'
e eu 'animal, é o andar todo'.
A vaidade: às vezes eu conhecia pessoas assim que nunca tinha
visto, dentro do fórum, colegas que vinham de Porto Seguro para
Salvador, defender alguns recursos, e dizia 'como é que você
vai?' 'eu não sei, não sei nem como é que eu vou,
eu estou aqui preocupado' 'você vai no meu avião' pra dizer
que tinha avião, às vezes convidava as pessoas para conhecer,
ir a Itaparica, 'você vai na minha lancha' para dizer que tinha
lancha, 'vai na minha fazenda', vai chupar um cacau lá no sul
da Bahia' pra dizer que tinha fazenda.
Era uma vaidade terrível, doentia, mórbida.
Ao aproximar-me naquela noite do nosso apartamento, eu saltei, fui para
o elevador do prédio, e aquela sensação de que
algo estava do meu lado me seguindo e eu pulei dentro do apartamento
para ver se aquilo se desviava mas também entrou comigo e, pulei
dentro do elevador e foi subindo comigo e quando eu cheguei em casa,
empurrei a chave e bati a porta mas entrou comigo e eu não podia
ver.
Fui para meu quarto, era obrigado a fazer uma prece, eu não sabia
o porque mas era uma prece mecânica, eu tinha que fazer. E eu
sentei-me ali, vesti o meu pijama, estava a beira da cama e comecei
a fazer aquela prece e, quando eu olhei para a porta do meu quarto,
eu vi quem estava me seguindo naquela noite: era o meu amigo, Satanás,
o príncipe das trevas.
E ele me disse: 'se você sair de qualquer dessas minhas obras,
dos meus trabalhos, eu vou te matar! Eu vou destruir sua mulher e sua
filha' . Eu tinha uma filha Andréa, minha filha mais velha. Respondi:
'Satan, vamos fazer um acordo?' ele disse 'O que é que você
quer?' 'Eu quero que você mate, agora mesmo, minha mulher e minha
filha e me deixe viver'. Eu estava preparado para matar mas não
estava preparado para morrer. Eu andava armado com uma pistola Colt
45 dentro de uma bolsa que eu andava a tira colo com dois carregadores
tipo cofre, carregado, mas não estava preparado para morrer.
E, naquele momento que ele me disse que ia me matar, eu entrei em parafuso
e caí esparramado no chão. Eu estava com medo. Eu estava
perplexo. Eu estava atônito. Eu não estava preparado para
morrer. Então eu fiz o que qualquer homem valente, corajoso faz
quando nesses momentos. Botei a boca no mundo, comecei a gritar. E eu
gritava e gritava e, quando eu estava no auge daqueles berros, eu senti
que uma mão pousava no meu ombro por trás de mim e me
dizia: 'Diga Jesus'.
E eu disse 'Jesus'. E, quando disse Jesus, Satanás, Lúcifer,
estava na minha porta do meu quarto, foi para a cozinha e aí
começou a quebrar as coisas na cozinha, virava fogão,
e abria geladeira, derrubou tudo e quebrou louça. e eu disse
mais uma vez 'Jesus'. E aquela vosinha atrás de mim dizia 'diga
tenha misericórdia de mim'.
E eu disse 'tenha misericórdia de mim'. E, em dado momento, eu
experimentei algo que eu nunca tinha sentido na minha vida. Um silêncio
fez-se em toda aquela madrugada e eu experimentei uma paz tão
profunda e tão tremenda no meu coração e uma alegria,
o colorido da vida, e o sabor de viver. E eu fiquei tão curioso
com aquele oráculo que estava atrás de mim, me dizendo
o que devia fazer que eu olhei para trás para descobrir quem
era e descobri algo que eu não sabia.
Ali estava a mulher mais bonita do universo: a minha esposa. Aquela
pequena mulher de 1 metro e cinqüenta de altura tinha colocado
o seu rosto no chão e sua cara no pó e disse 'Deus, se
você libertar o meu marido das garras de Satan, todas as quartas
-feiras nós vamos te fazer um culto até a morte'. E a
bíblia diz: Este Deus é o meu Deus para todo o sempre
e Ele será o meu guia além da morte.