Bezerra da Silva

Em 1954, porém, algo aconteceu que o levou a, num curto espaço de tempo, a perder os
dois empregos e ser rejeitado pela família de sua irmã, que viera morar em Niterói.

Bezerra declara ter passado os três anos seguintes como mendigo,
vivendo na rua, tentando até pôr fim à vida.

Em 1957, uma das poucas pessoas que ainda falavam com ele no Cantagalo,
uma senhora chamada Paula, o encaminhou a um terreiro de candomblé onde ele ficou
morando por quatro anos até que, cumpridas suas obrigações rituais,
foi aconselhado a não mais trabalhar na construção civil e se dedicar por inteiro à música.

Bezerra freqüentou o candomblé até 2002, quando se tornou evangélico.

O jeitão despachado, as músicas polêmicas – que muitas vezes faziam referência a bandidos e às drogas – e bordões do tipo “malandro é malandro, mané é mané” deram a Bezerra da Silva, morto na manhã desta segunda-feira (17/01/05), no Rio,
um estereótipo bem distante de sua personalidade.

Casado com Regina, evangélico desde 2001 e freqüentador assíduo da Igreja
Universal do Reino de Deus, o sambista dizia que não fumava, cheirava,
bebia ou freqüentava pagode, embora fosse mangueirense.

“Quando a maré está legal, o máximo que faço é dar um passeio com a patroa”,
disse Bezerra da Silva, em entrevista coletiva no lançamento
de seu último disco, Meu Bom Juiz, em 2003.

Conhecido como o “porta-voz do morro”, José Bezerra da Silva, nascido no Recife em 23 de fevereiro de 1927, morreu aos 77 anos, vítima de parada cardíaca.

Ele estava internado desde o dia 28 de outubro de 2004 no Hospital dos Servidores do Estado, no Centro do Rio, quando deu entrada no Centro de Terapia
Intensiva (CTI) apresentando enfisema pulmonar e pneumonia.

Antes, no início de setembro, o sambista fora internado no Hospital São Lucas, em Copacabana, com dificuldades de respiração.

Sambista preparava CD gospel

Bezerra da Silva foi para o Rio de Janeiro aos 15 anos como clandestino em um navio e foi morar no Morro do Cantagalo, em Ipanema.

Começou a trabalhar na construção civil como ajudante de pedreiro e, posteriormente, como pintor, até optar pela música. Em 1969, gravou seu primeiro compacto simples, com as músicas Mana, Cadê o Boi? e Viola Testemunha, pela Copacabana Discos.

O primeiro LP veio em 1975, intitulado Bezerra da Silva, o Rei do Coco Volume 1,
lançado pela Tapecar.

Nos anos 90, Bezerra da Silva voltou à mídia, com novos projetos e idolatrado pelos roqueiros. Em 1994, em seu disco de estréia,
O Rappa gravou Candidato Caô Caô, com participação do sambista.

No ano seguinte, gravou com Moreira da Silva e Dicró o CD Os Três Malandros in Concert, sátira a Os Três Tenores, de Luciano Pavarotti, Plácido Domingo e José Carreras.

Em 1996, o Barão Vermelho fez uma releitura, com enorme sucesso,
da música Malandragem Dá um Tempo, no disco Álbum.

Em 1997, Bezerra participou de um show do Planet Hemp, no Canecão; poucos dias depois, o grupo seria preso, em Brasília, por fazer apologia às drogas.

Mas tornou-se amigo do vocalista Marcelo D2, fã confesso de Bezerra.

O rapper carioca participou de Meu Bom Juiz, cantando a sugestiva Garrafada do Norte, dona dos versos “Doutor, Deus criou a natureza / E também as belezas dessa vida / O Planet Hemp quer saber / Por que é que essa erva é proibida”.

Mesmo convertido – Bezerra chegou a começar aquela entrevista dizendo “O Senhor é Deus” – o sambista não se arrependia de tratar de temas como esse.

“Esse é o meu trabalho”, resumiu. “Tenho fama de que sou criador de caso, mal-educado, cantor de bandido. Vivo num país em que é proibido falar a verdade.”

O cantor se preparava para lançar um disco com músicas religiosas. Segundo Bezerra da Silva, o repertório – composto não por artistas evangélicos, mas pelos mesmos autores de seus sambas – já estava pronto, mas ele estava à procura de uma gravadora.

O sambista afirmou que procurou a Line Records, gravadora da Igreja Universal, mas o projeto foi recusado, sob a alegação de que não se enquadrava no perfil da empresa.

A assessoria de imprensa da Line confirma a informação.

“Ainda vou gravar para Jesus”, disse Bezerra, em 2003.
Não deu tempo de ver o trabalho nas lojas.

 

 
     
       
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