De
um modo ou de outro, precisamos conhecer os princípios e as técnicas
mais usuais da acústica de estúdios.
A grande maioria dos home studios
opera em um ou dois cômodos da casa ou apartamento sem tratamento
algum.
Para muitos deles, isto não chega a trazer inconvenientes.
É o caso, por exemplo, de estúdios que produzem música
instrumental eletronicamente, como os estúdios MIDI que produzem
trilhas sonoras.
Sem vazamentos no som, basta mixar em baixo volume, para que as reflexões
do ambiente não confundam o produtor.
Com microfones duros, pouco sensíveis, como os dinâmicos,
podemos gravar com qualidade razoável em ambientes menos barulhentos.
Contudo, para captarmos vozes e instrumentos com os microfones adequados,
assim como para trabalhar com volumes mais altos, algum tratamento é
necessário.
Se você pretende realizar uma obra em seu estúdio, é
fundamental contratar um especialista em acústica de estúdios.
Engenheiros e arquitetos em geral são excelentes para construções
e reformas de nossas casas, mas experiência em acústica é
uma outra história.
Uma obra ineficaz só se resolve botando abaixo e começando
tudo de novo.
É um investimento muito alto para se arriscar.
Conhecendo as principais técnicas, podemos improvisar soluções
criativas que reduzem alguns problemas do ambiente.
Primeiro, precisamos desfazer alguns mitos e compreender que temos duas
questões distintas no tratamento acústico: isolamento e
revestimento.
Isolamento. Aqui, queremos evitar incomodar os vizinhos e evitar que os
vizinhos nos incomodem.
Quem puder, opta pelo quarto mais silencioso da casa. Ou por uma casa
isolada do mundo. Não nos iludamos: espuma, isopor, caixa de ovo,
lã de vidro, carpete ou cortiça não são exatamente
isolantes acústicos.
Uns ou outros podem ser úteis no revestimento, que veremos a seguir,
mas o que isola mesmo um ambiente é a massa do material usado em
torno dele. Pedra, alvenaria, madeira, sim, são bons isolantes,
quando usados com a espessura necessária.
A pressão sonora de nossos estúdios não é
a mesma de um estúdio tradicional que gravava big bands nos anos
40, com a orquestra atacando junto com o cantor, o coro, mais piano, guitarra,
baixo e – ahá! – a bateria.
Para um estúdio desses, só paredes com quase um metro de
espessura. Uma parede fina, com toda essa pressão, se comporta
como uma membrana, vibrando e fazendo vibrar o ar do lado de fora.
A idéia do estúdio flutuante (box in a box, ou uma caixa
dentro da outra) se tornou a tendência predominante nos grandes
estúdios: em vez de uma parede muito grossa, duas paredes com uma
camada de ar entre elas.
Quando a parede interna vibra com o som, o ar que está entre as
paredes é elástico demais para transmitir as vibrações
à segunda.
A partir deste conceito, constroem-se um piso suspenso sobre um molejo,
paredes duplas apoiadas sobre o piso suspenso e teto rebaixado apoiado
nas paredes internas. De fato, uma caixa dentro da outra.
O estúdio flutuante só tem contato com a sala onde foi construído
pelos molejos ou pelo ar.
Fantástico, porém fora de cogitação para a
grande maioria. O espaço de um quarto é muito pequeno para
ser reduzido assim.
Só que esta técnica pode ser adaptada, por exemplo, se construímos
paredes de madeira. Podemos alternar camadas de madeira, ar e lã
de vidro, que contribui na absorção do som. Engrossamos
a parede sem reduzirmos muito a área do estúdio.
Um item fundamental é não deixar frestas. Onde passar o
ar, passará o som. Preencha as frestas inevitáveis com silicone.
Cuidado com os visores entre as salas, que podem causar vazamentos de
som.
Use vidros grossos e duplos, formando um ângulo de um para o outro
e com ar entre eles.
Revestimento. Uma vez isolado o estúdio, queremos evitar reflexões
excessivas. Se a sala reverbera muito, como vamos dosar a intensidade
dos reverberadores numa mixagem? Por outro lado, não podemos abafar
a sala ao ponto de não reconhecermos nossa própria voz.
O som deve ser natural, ao mesmo tempo suficientemente vivo e sem excesso
de reflexões.
Alternamos materiais absorventes e reflexivos numa proporção
que garanta o sucesso de nossos objetivos. Das quatro paredes, mantemos
uma reflexiva e revestimos as outras três com materiais absorventes.
A parede reflexiva é sempre a frontal (junto aos monitores) ou
a traseira. A outra e as laterais podem ser revestidas de lã de
vidro coberta por carpete ou tecido. Em casos mais simples, pode ser só
um carpete bem fofo, ou até espuma.
A lã de vidro deve ser aplicada com cuidado, pois causa forte coceira
e pode cegar. Antes de fixar as placas de lã de vidro numa parede,
monte um xadrez com ripas de madeira e aparafuse-o à parede.
As placas da lã serão encaixadas entre as ripas para melhor
fixação à parede. Depois de cobrir a parede com uma
ou duas camadas de lã, cubra-a com tecido ou carpete.
Quanto ao teto e ao chão, um dos dois é reflexivo e o outro
absorvente. Se usar carpete no chão, deixe o teto reflexivo (usando
alvenaria, madeira, fórmica). Se o piso for de material reflexivo
(duro), cubra o teto com um material absorvente.
Evite deixar ângulos retos nos cantos da sala, quebrando-os com
madeira ou outro material. Ângulos e paredes paralelas causam diversas
reflexões indesejáveis.
Ar condicionado. Nos estúdios maiores, com o rebaixamento do teto,
construímos uma cabine isolada e instalamos nela um condicionador
de ar central. Da cabine até o centro de cada sala, passamos um
duto sobre o teto rebaixado.
Esses dutos, que se abrem no centro de cada teto, realizam as trocas de
ar e mantêm o isolamento acústico graças às
curvas que descrevem no caminho até as salas.
O som não se propaga pelas curvas dos dutos.
Os estúdios menores, mesmo sem rebaixar o teto, precisam de ar
condicionado. A solução é escolher aparelhos silenciosos
e, se preciso, desligá-los durante os momentos em que gravamos
com microfones, religando-os em seguida.
O problema é que o som do exterior vaza para a sala através
do condicionador de ar. Podemos construir um caixote para cobrir o aparelho
na hora de gravar.
Há muitas outras técnicas que merecem ser estudadas, para
evitarmos diversos problemas com as reflexões do som. Mas essas
que abordamos podem ajudar na criação de soluções
pessoais que sirvam aos estúdios pequenos e médios.
Para quem vai partir pro quebra-quebra, nunca é demais insistir
que uma obra desse vulto precisa da orientação de um especialista.
Para evitar um possível grande prejuízo, invista na contratação
do melhor profissional que encontrar.
E que ele tenha como indicar operários experientes na construção
de estúdios. Nos grandes centros, contamos com excelentes profissionais.
Visite outros estúdios, sinta o som e peça indicações.
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