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.: Sabedoria


Cristo é uma presença viva, nova e eficaz e por isso mesmo rompe com o nosso passado. Sua palavra desconcerta e abre horizontes impensáveis, sua proposta pede autenticidade e coragem.

Trata-se de entrar em uma realidade nova, não basta levar a cumprimento aquilo que uma pessoa sente dentro de si. O objetivo não é simplesmente a auto-realização, não é suficiente que a pessoa se liberte da própria escravidão. É necessário colocar-se disponível para fazer acontecer a passagem do "velho" para o "novo" para que se recrie uma nova pessoa em Cristo.

Integrar o modo de ser e de fazer supõe um processo autêntico, supõe ter feito uma passagem ou uma transformação ao longo do itinerário da vida. Antes de fazer uma lista de critérios de maturidade humana é muito importante, compreender o que significa ser uma pessoa que realiza plenamente a sua humanidade, com os recursos, as condições e as limitações da vida.

O apóstolo Paulo quando fala da "nova pessoa" (cf. Ef. 4:24), diz que a pessoa nova é totalmente iluminada da sabedoria do Espírito, também se a pessoa é autenticamente humana. É ao interno da experiência e da condição humana que nós aprendemos a aderir ao Deus de Jesus Cristo e a professar nosso ato de confiança na Salvação e na vida nova que nos foi revelada e comunicada por Ele. Esta força interna nos faz acreditar que no mais profundo do nosso ser é inscrita uma esperança no "mistério" da qual cada um de nós é portador e que remete ao mistério de Deus.

A cristificação consiste em despojar-se pouco a pouco das vestes velhas e revestir-se das novas. Este é um trabalho paciente, que dura uma vida. É necessário um contínuo exercitar-se, porque por uma mínima desatenção ou distração se pode cair na rotina da "pessoa velha". Alguns autores chamam de "velha pessoa" aquelas manchas que caracterizamos como egoísmo, suspeitas, ira, racismo, rancores, instintos de vinganças, etc. Toda a nossa vida deverá ser um exercício ou uma passagem do modo de ser pessoal ao modo de ser de Jesus: um processo pascal e cristificante.

Colocando-se neste exercício de passar do velho para o novo, a própria vida torna-se como que um contínuo escavar o sentido da presença e da ação de Deus, e um certo modo de conceber a maturidade da própria humanidade.

EXPERIÊNCIA COTIDIANA DA DEUS

O processo de cristificação nos pede um contacto constante com a Palavra de Deus, pois é ela que a cada dia nos alimenta, isto é, a Palavra manifesta-nos Deus e sua vontade, a nossa vocação e a nossa identidade, mediante uma revelação progressiva e ligada à vida. Por meio de sua Palavra, cada dia, Deus faz a sua experiência em nós e nós fazemos experiência dele. O Pai/Mãe nos prova e nos seduz, e descobrimos sempre novos aspectos de sua paternidade/maternidade e de seu projeto sobre nós.

Quando ouvida, meditada, rezada com certeza, a Palavra de Deus vive em nós e nós vivemos nela, nossa vida torna-se com Deus e nosso dia como um seio virginal que gera e vivifica a Palavra.

Esta experiência cotidiana de Deus por meio do cultivo da Palavra é que possibilita o deixar-se formar em nós Cristo até chegar à assimilação dos seus sentimentos.

PERMANECER NA PALAVRA

No evangelho de João, Jesus repetidamente nos convida a "permanecermos" Nele e no seu amor como o ramo permanece unido a videira, a fim de produzir fruto para a Glória de Deus (cf. JO 15).

Na experiência cotidiana de Deus, este "permanecer" tem um sentido bem preciso: não significa apenas ficar unido a Deus só oferecer-lhe as nossas ações. É permanecer na sua Palavra e permitir que ela estabeleça morada em nós. Este permanecer e fazer morada Nele exige um sair de nossos "ninhos" para impedir que nossas ações sejam apenas projeção de nós mesmos.

Esta permanência na Palavra é que possibilita sermos pessoas novas e o exercício da escuta do Senhor na Palavra recria em cada pessoa o dom da vida nova. É fazer com que nossos pensamentos, afetos, gestos e projetos se fundamentem e encontrem inspiração naquela Palavra que guardamos no coração. De maneira que tudo o que fazemos e pensamos, nosso esforço e nossa doação, tenha na Palavra seu início e seu fim, seja por ela animado, sustentado, enriquecido e vitalizado, mas também penetrado e purificado por essa Palavra que nos salva, nos perscruta e nos conhece (Salmo 138).

CONCLUINDO

É precisamente no amor que a pessoa humana encontra a verdadeira realização de si mesma e faz uma autêntica experiência de Deus. Ele, o Senhor, nos pede que O amemos com todo o nosso ser, porque somente Ele é bondade e ternura infinita e pode ser amado ilimitada e "totalmente" e incondicionalmente. Precisamos, porém, aprender a amar a Deus, sobretudo, se queremos realmente fazer experiência Dele.

A "nova pessoa" recriada pela Palavra deixa-se amar por Deus. E deixar-se amar por Deus é descobrir a fascinação da pessoa de Cristo, revelação humana do amor divino. E é na medida em que houver uma progressiva libertação a velha pessoa e de seus amores é que surgirão o amor novo e a grande fascinação pela pessoa de Jesus Cristo. Ele é o "vivente", aquele que permite "viver" quem dele se aproxima. É alguém com o qual podemos estabelecer uma relação significativa. Alguém que plenifica nossa vida, porque toca a nossa pessoa, desperta-a e a muda, provocando uma resposta "total" para que viva ainda mais.

Para que recriados, fascinados e formados pela sua Palavra deixemos nos atingir na profundidade de nosso coração, a fim de que possamos viver como filhos e filhas da Luz, pessoas novas Nele. A pessoa que se deixa seduzir, não pode deixar de abandonar tudo e segui-lo. À semelhança de Paulo, considera todo o resto como "perda, pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus", não hesitando em considerar tudo o mais como "lixo, a fim de ganhar Cristo" (Fl 3:8). A sua aspiração é identificar-se com Ele, assumindo os seus sentimentos e forma de vida. O deixar tudo e seguir o Senhor (Lc 18:28) constitui um programa válido para todas as pessoas chamadas e para todos os tempos.